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"Quer dizer, há coisas mais fáceis que outras de oferecer. Há degraus de relevância e dificuldade. Partilhar nosso corpo, por exemplo, ao contrário do que diz a lenda moralista, é fácil – e pode ser irrelevante. Bem mais difícil é compartilhar ideias e sentimentos. Isso exige afinidade. Somente quando ela é profunda – o que nem sempre acontece – as pessoas se dispõem a partilhar o tempo. As manhãs, os sábados, os verões. Tempo, afinal, é sinônimo de vida. Não é o tipo de coisa que se divida com qualquer um. (...)

 

Mas a gente sabe que passa. A paixão passa e, dentro dela, se a gente tiver sorte, se engendra a capacidade de compartilhar - o corpo, as ideias, o tempo. Se a gente tiver sorte, vai se acostumar ao outro corpo sem perder o interesse por ele. Os pés descalços, a pinta nas costas, a dor que reaparece e precisa ser combatida com massagens. Se a gente tiver sorte, vai se acostumar às ideias e a personalidade do outro, se apegar a elas. As descobertas e decepções da outra alma se tornam parte da nossa vida, compartilhadas. Se a gente tiver sorte, e alguma generosidade, vai receber o outro na nossa existência. Vai se acostumar a dividir com ele o tempo precioso, vai observá-lo mudar e amadurecer. Com sorte, a vida dela ou dele vai se tornar também a nossa vida. Por quanto tempo, nunca se sabe. A gente pode ter mais ou menos sorte. O importante é deixar-se tocar pela existência do outro e fazer parte dela. " Ivan Martins

publicado por andresa às 21:07 | link do post | comentar