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Não sei se você tá vendo ou se vai chegar a ver, mas eu tenho um medo estranho de deixar que me vejam. Medo desses que me atrapalham pra cacete, mas não tem nada que eu possa fazer pra mudar isso. É meu efeitovideo game: preciso passar de fase, uma a uma, pra ficar mais forte e chegar no chefão. E já foram tantas fases, tantos game overs, tanta preguiça e falta de vontade de recomeçar que olha, às vezes, eu prefiro me largar num sofá com pipoca a ter que recomeçar. É exaustivo ter que programar tudo, encontrar um rosto novo e contar, me construir, deixar que me descubram de novo e de novo e mais uma vez pra depois acabar em nada. É o jogo da sociabilidade amorosa, certo? Vira à direita e mais duas à frente você me encontra perdida de novo. Fico me perguntando se você me pararia e me seguraria pelos ombros, pra me sacolejar e me dizer o que eu preciso ouvir. Que eu não preciso de carinho – agora -, só de alguém (você) que me diga que já chega.

Diz pra mim que já chega de travar essas batalhas sozinha porque cansa. Cansa ter que convocar exército e botar o povo na rua pra fazer revolução amorosa. Cansa jogar com um console e ver mais um jogo indo pro buraco por falta de companhia compartilhada. Cansa dizer quem eu sou dezenas de vezes pra alguém que mal vai lembrar meu nome amanhã. Então vira a esquina e me deixa em casa. Me deixa na porta e insiste em entrar comigo. Insiste em não me deixar sozinha essa noite e jogar comigo, sem questionar meus vícios, pra abrandar essa guerra que tá na minha cabeça. Não me deixa cavar trincheira nenhuma dessa vez. Para na minha porta e desce do carro, do tanque de guerra, desse movimento que todo mundo faz de me deixar aqui e não voltar. Mostra pra mim que você decorou o caminho todo e que tem razão: eu não preciso mais brigar comigo pra deixar alguém entrar.



publicado por andresa às 00:20 | link do post | comentar